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Ouvi, certa vez, um obreiro contar que, tendo sido convidado para pregar numa igreja, se fez à estrada com o depósito da sua viatura na reserva. A situação estava naquele ponto porque não havia dinheiro para adquirir combustível.
Ele foi, mesmo assim, porque imaginava que no fim da sua participação, a igreja em causa, iria preocupar-se em contribuir com algum dinheiro para a gasolina. Mas tal não aconteceu. O obreiro ficou em pânico porque, para além da esposa, levava consigo a sogra que não era crente e não gostava particularmente que a filha estivesse numa situação financeira sempre tão insegura. Preocupado porque a todo o momento o carro ficaria sem gasolina e não querendo que a sogra se apercebesse daquela situação, parou numa bomba e tentou negociar com o empregado algum combustível em troca do seu relógio. O empregado não esteve pelos ajustes e, entretanto, a sogra apercebendo-se da situação de que já desconfiava, saiu do carro e puxando da carteira deu-lhe o dinheiro necessário.
Sim, isto passou-se em Portugal e não vai há muitos anos.
Infelizmente as igrejas evangélicas esquecem, muitas vezes, que o obreiro é digno do seu salário (I Tim.5:18), havendo também aquelas que julgam que, em matéria de dignidade dos obreiros, o assunto se restringe apenas à área do sustento.
Quando falamos da dignidade dos obreiros estamos a dizer que eles merecem respeito. Isso inclui que respeitemos as suas necessidades materiais e as dos seus; (estamos a pensar na comida, vestuário, habitação e conforto da mesma, problemas de saúde, os meios de ele se locomover para poder colaborar na obra, a escola para os seus filhos, etc.) mas também que o respeitemos na sua dignidade pessoal.
A forma como vejo e ouço, tantas vezes, os obreiros a serem tratados leva-me a pensar que alguns crentes entendem que os servos de Deus (como se diz na gíria evangélica) de tempo integral, são seus criados. Não me desentendam, eu sei que os obreiros devem servir mas a Bíblia mostra que devemos ser servos uns dos outros. Nenhum de nós se deverá, nunca, considerar senhor de quem quer que seja.
Expressões como: "Ele vive da obra" ou "Está por conta das igrejas", isto para falar das mais suaves, (já ouvi que quem vai para obreiro é porque não gosta muito de trabalhar, que o obreiro não deixa de ser um pária, etc) deveriam ser banidas do nosso vocabulário. Sentimentos de que os obreiros são um peso para as igrejas deveriam levar-nos a pensar porque é que ainda oramos, por vezes, ao Senhor da seara para que mande obreiros.
É triste ver homens e mulheres, que um dia resolveram ouvir a pergunta do Senhor: "A quem enviarei, e que há de ir por nós?" e responderam: "Eis-me aqui, envia-me a mim"; que deixaram tudo para servir ao Senhor, terem agora que lançar mão da venda de produtos ou de trabalho a meio tempo para poderem sobreviver.
E não me venham com aquela da obrigação do obreiro "viver por fé" ou então que "é o Senhor que tem de suprir as necessidades dos obreiros". É claro que os obreiros devem confiar em Deus quanto ao seu sustento mas nós não devemos esquecer que o Senhor não tem dinheiro em sua mão. Ele repartiu o dinheiro pelos seus filhos (por nós) a quem constituiu mordomos dos seus bens.
Certamente todos conhecemos a história, verídica, daquele rapaz que num Domingo, ao passar num salão evangélico onde decorria a Escola Dominical, foi atraído pelos coros que estavam a ser entoados. Entrou e naquele mesmo dia aceitou a Jesus como seu Senhor e Salvador. A partir daquela altura ia sempre à igreja e, como andasse sempre descalço e com as roupas rasgadas (e naqueles dias isso não era moda) algumas pessoas interrogaram-no: "Ó rapaz então tu vais adorar a Deus e ele, que dizem ser tão poderoso, não te podia dar roupas melhores e uns sapatos?" ao que o rapaz respondeu: "Ele já deu o dinheiro aos meus irmãos mais velhos mas eles ficaram com o dinheiro todo..."
Interroguemo-nos com honestidade: quantos obreiros, livres de trabalho secular, possui o movimento dos "Irmãos" em Portugal?.
Esta pergunta deverá ser temperada com mais duas: Como estão as nossas igrejas locais em matéria de crescimento? E quantas igrejas novas estamos a implantar cada ano?
Permitam-me que termine esta curta abordagem com uma outra pergunta: Os poucos obreiros, livres ou parcialmente livres de trabalho secular, sentem-se reconfortados com o nosso apoio, espiritual, monetário mas também ao nível afectivo?
Eles sentem que estamos com eles, que nos preocupamos com o seu bem-estar total?
Refrigério Edição n.º 119 - Novembro/Dezembro 2007
Autoria: José Carlos Oliveira
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