06-Fev-2012
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Isso incomoda-nos ? Imprimir

 

Apocalipse 4

Há diversas opiniões sobre o que significam “os anciãos” e “os animais” dos quais este capítulo nos fala. Seja qual for a interpretação, eram pessoas que desfrutavam a presença do Senhor, permaneciam perante o Seu Trono em perfeita felicidade e adoração, e gozavam a mais íntima comunhão com Ele.

Eram daqueles que conheciam o Senhor como “Aquele que era, que é, e que há-de vir…” portanto é provável que pertencessem aos redimidos pelo sangue do Cordeiro. Em todo o caso, o facto mais notável é que eles estavam perfeitamente à-vontade na presença da Glória e Majestade do Senhor dos senhores e Rei dos reis; tinham a consciência de que não havia coisa nenhuma neles, ou feita por eles, que lhes pudesse trazer acusação na presença do Deus Santo que eles adoravam. Este facto torna-se ainda mais notável, quando lemos os versos seis e oito: “quatro animais cheios de olhos por diante e por detrás” e “ao redor e por dentro estavam cheios de olhos”.

“Estes animais” ou “criaturas viventes” tinham olhos “por detrás” - podiam olhar para trás. Seria um símbolo da capacidade do homem de recordar o que se tem passado, de reviver o passado em pensamento? Se assim era, isso não incomodava essas “criaturas” na presença do Senhor. Para muitos seria uma coisa horrível poder lembrar-se do passado; muitos dariam tudo quanto têm, para poderem viver de novo os dias que perderam. O espectro negro da sua vida passada, levanta-se perante eles, como um terrível juiz para os condenar, como um horrível peso para os esmagar, como um fantasma que os segue continuamente. Poder olhar para trás deve trazer recordações desagradáveis para todos. Recordações de dias que quereriam poder resgatar, de dias que desejariam apagar da história, afastar e sepultar para sempre da sua memória. Mas o homem tem “olhos por detrás” e não pode esquecer-se do passado e muito menos sepultá-lo. Se fosse apenas o homem que tivesse “olhos por detrás”, isso não o incomodava tanto, mas Deus, que o criou, também tem “olhos por detrás”, e Ele recordará até aquilo que o homem não consegue relembrar.

Além de terem “olhos por detrás” estes “seres viventes” tinham olhos “por diante” - eram capazes se olhar para o futuro. E isso incomoda-nos? Há, neste mundo, aqueles que não vêem, no futuro, mais do que uma continuação de um presente de angústia, tormento e miséria; têm que viver mas não sabem para quê, têm que caminhar mas não sabem para onde, são obrigados a olhar para o futuro, mas isso só lhes traz desânimo, devido às trevas densas de ignorância e dúvidas. Pensam em pôr fim a esta vida, mas receiam (com verdade) que isso só seja o princípio de uma outra pior; sim, esses “olhos por diante” não se apagam com um simples golpe de uma faca ou um tiro de pistola; o homem foi feito à semelhança de Deus e tem que viver, ele não é uma flor que cai, ou um vapor que se dissipa, a não ser quanto ao seu corpo. A ressurreição pode ser ou uma esperança ou uma sentença; a morte pode ser a porta que se abre para pôr em liberdade o “preso” ou a porta de uma prisão, que se abre para o receber. O Trono do Senhor, ou pode ser o símbolo da felicidade eterna, ou a eterna ruína. O homem, que tem os “olhos por diante”, tem que encarar estes factos do futuro, pois ele é criatura do Deus que era, que é, e que HÁ DE VIR.

Estas criaturas viventes também tinham olhos “por dentro”, o símbolo da sua capacidade de volver a vista para dentro delas, mesmas, no exame de si próprias, de reconhecerem o que eram ou o estado do seu próprio coração.

De todas as visões, talvez esta seja a mais terrível; isto é, para o homem que realmente, com sinceridade, quer conhecer-se; mesmo quando sonda o seu íntimo, não chega a aprofundar a maldade do seu coração; foi por isso que o salmista David pediu ao Senhor para Ele o esquadrinhar. O Senhor Jesus Cristo disso claramente o que havia no homem  “Do coração saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfémia, a soberba e a loucura”. O homem pode dizer: “Nunca saíram tais coisas do meu coração!”. Isso não quer dizer que não estejam lá! Só lhes faltou o ambiente próprio para se manifestarem em todo o seu horror.

O pecado é uma raiz que dá fruto, é uma fonte que dá água, e uma lepra que contamina o ser inteiro. O homem volve os olhos para dentro e vê, em si mesmo, o que o pecado tem conseguido fazer naquele que foi criado à imagem de deus. Ele vê o resto de virtudes humanas manchadas, tortas, desfiguradas no meio das ruínas de uma vida que Deus criara para Si; vê os mais altos ideais prostituídos para servir o seu interesse; vê as mais elevadas funções humanas arrastadas na sensualidade; vê aquele que foi criado para reinar, escravo de si mesmo, do pecado e do mundo, - sobre o qual devia reinar  dominado por aquele que devia ser apenas o seu instrumente de desenvolvimento  Satanás.

Eis a razão de tão poucos quererem encarar os factos da ruína humana, acalentando sempre a ilusão de restaurar o homem àquilo que era no princípio, coisa que nem mesmo Deus tenta fazer, pois abandona o velho homem e condena-o à Cruz.

Se o olhar para trás produz desânimo, e o olhar para o futuro, medo, o olhar para dentro levará o homem sincero ao desespero da incapacidade e fraqueza. É obrigado a reconhecer o que o apóstolo Paulo confessou: “Sei que em mim não habita bem algum”, ou a clamar como o profeta Isaías: “Ai de mim que vou perecendo …” ou a exclamar como Pedro: “Senhor ausenta-te de mim, que sou pecador “. A luz de Deus sempre revela a mesma coisa  a irreparável ruína da natureza humana na sua anarquia contra o próprio Deus.

Estas “criaturas viventes” também tinham olhos “ao redor”; podiam apreciar as suas circunstâncias actuais, olhando em volta  e isso não os incomodava.

Tantos olham em sua volta hoje, febrilmente, procurando um meio de escape das circunstâncias em que se encontram. A visão é inquietante, perturbadora e mesmo, por vezes, aterrorizadora! Tantos se acham como aves numa gaiola batendo as asas contra as grades, numa tentativa vã de escaparem àquilo que lentamente os esmaga; as circunstâncias, ao redor de tais, são como uma montanha que ameaça desabar sobre eles e não há maneira de escapar! Olhando em volta, tantos outros vêem apenas as muralhas de um campo de concentração, outros o espectro negro da fome e miséria; outros ainda sentem o troar dos canhões e o matraquear das metralhadoras, enquanto outros esperam, sentindo-se como alguém que está assentado sobre explosivos que ele bem sabe hão-de explodir. Para os crentes, o olhar em redor resume-se sempre nas palavras do Senhor Jesus: “No mundo tereis tribulações”.

Mas o facto maravilhoso era que estas “criaturas viventes” não receavam olhar para trás, nem para a frente, nem para dentro, nem em redor: sentiam-se perfeitamente à-vontade na presença do Senhor. E tal posição incomodar-nos-ia a nós? O passado preocupa-nos? O futuro perturba-nos a paz de espírito? O estado do nosso coração horroriza-nos? As circunstâncias actuais atemorizam-nos? O segredo de podermos olhar para o passado, para o futuro, para dentro de nós mesmos e ao redor, com tranquilidade, está contido numa só palavra  “Redenção”.

A cruz do Calvário dá ao homem o direito de olhar para o seu passado com gratidão  pois sepulta-o! Deus apaga o passado do homem arrependido porque Cristo morreu; o rio bendito do Sangue derramado na Cruz leva os pecados do homem para o mar do esquecimento de Deus. O seu futuro está assegurado porque Cristo ressuscitou e intercede por ele. O Senhor Jesus não descansará enquanto não apresentar o homem, que salvou pela Sua humilhação na Cruz, perante o Pai, na Sua Glória. “Vou preparar-vos lugar” não é apenas a esperança de o Senhor fazer uma morada para os Seus remidos, mas a certeza de que Ele colocará o homem, que salvou, nessa Glória celeste.

Para aqueles que têm “olhos por dentro”  contemplando a podridão dos seus corações, a Cruz apresenta a única resposta. Deus não nos diz: “Bem-aventurados os limpos de coração” sem poder dar tal pureza; não promete um estado a que não nos pode elevar; não requer uma condição que Ele mesmo não seja capaz de operar em nós. Se Ele não opera em nós, temos eternamente, nos lábios e no coração, a pergunta angustiosa do apóstolo Paulo: “Quem me livrará…?”. A profundeza da corrupção do coração humano é tremenda, mas as manchas do pecado não são tão negras que o sangue de Jesus não possa limpar  louvado seja o Senhor! Pelo sangue de Jesus, os “olhos por dentro”, contemplam a formosura e a pureza de uma vida purificada, em vez de encarar o nevoeiro denso das paixões, maldades e anarquia de um coração corrompido.

Nós temos “olhos ao redor” e as ondas e vagas dos temporais neste mundo são para meter medo às vezes. Não podemos controlar essas circunstâncias mas, os que são crentes, crêem que o nosso Pai Eterno está a controlá-las; não conseguimos dominá-las, mas o Espírito de Deus domina-nos nelas e, como Pedro, somos levados a calcar aos pés as ondas que metiam medo. O mesmo Jesus que disse que teríamos tribulações no mundo, também disse que tinha vencido o mundo. Ele nem sempre faz cessar a tempestade, mas sempre nos protege nela. O mundo que atormenta os incrédulos é a oportunidade para o Senhor mostrar o Seu Poder nos Seus filhinhos.

Estes “animais” adoravam o Senhor. O facto de podermos volver os olhos: para trás, com gratidão; para o futuro, com esperança; para dentro, com satisfação; ao redor, com confiança  faz-nos volvê-los para o Senhor em verdadeira adoração.

Frank Smith
Refrigério 127

 
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