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Recordando os 180 anos após a chegada a Bagdad
No dia 12 de Junho de 1829 um pequeno iate deixou o porto de Gravesend, no rio Tamisa ao sudeste de Londres, com destino a St Petersburg, agora Leninegrado, Rússia, que fica no Golfo da Finlândia. Abordo ia, acompanhado por alguns amigos crentes, o Senhor Anthony Norris Groves, sua esposa Mary e os seus dois filhos Henry de dez anos e Frank de nove. Foi a primeira etapa de uma viagem épica que tinha como destino Bagdade, para levar o Evangelho do Senhor Jesus Cristo, confiando somente em Deus para o sustento. Bagdade agora é a capital de Iraque mas naquela altura era uma cidade do Irão no Império Otomano.
Anthony Norris Groves, um dentista com uma clínica lucrativa na cidade de Exeter no sudoeste de Inglaterra e crente dedicado da Igreja Anglicana, sentiu a chamada de Deus para levar o evangelho a terras distantes. Quando compartilhou a sua chamada com a sua esposa Mary, ele desfez-se em lágrimas e nem podia falar do assunto. Anthony esperou pacientemente em Deus durante dez anos até que um dia ela se virou para ele e disse: “Bem Norris é melhor escrever à Sociedade Missionária da Igreja e dizer que estamos dispostos a ir a qualquer lugar”.
O secretário da Sociedade Missionária da Igreja Anglicana visitou o casal e, durante esta visita, Anthony levantou a possibilidade de, em vez de ir em pessoa, contribuir financeiramente com ofertas generosas do seu vencimento como dentista. A resposta do secretário, que influenciou definitivamente o casal, foi: “Se sois chamados por Deus, dinheiro não pode substituir esta chamada. Deus envia homens e precisa mais de homens do que dinheiro”.
Como a Igreja Anglicana exigia que somente sacerdotes ordenados poderiam ministrar a Ceia do Senhor, Anthony começou a estudar Teologia em Dublin, Irlanda. Foi ali que encontrou crentes que se reuniram de uma maneira informal para estudar a Bíblia e orar. Estes estudos convenceram-no que, segundo as Escrituras, todos os discípulos estavam livres para partir o pão juntos em obediência ao Senhor e que nenhuma ordenação humana era necessária para pregar o Evangelho. Estas convicções levaram-no a abandonar os estudos poucos meses antes de terminar o curso. Ele ainda se ofereceu para servir assim como missionário da Igreja mas, como foi informado que, não sendo ordenado não poderia celebrar a Ceia do Senhor, ele deixou a Igreja Anglicana.
Como era a intenção da Igreja Anglicana enviá-lo para Bagdade, ele resolveu continuar com este plano mas sem ligação com qualquer sociedade missionária, olhando somente para Deus para o guiar e providenciar em tudo.
Foi durante a viagem de Gravesend (Inglaterra) a St Petersburg (Leninegrado, Rússia) que ele escreveu a um amigo. “Nunca tive forte expectação de que o que vamos fazer seja manifestamente muito grande, mas que responderemos a um propósito nos planos de Deus, não tenho dúvida. Minha fonte de alegria e felicidade para o futuro, portanto, virá muito mais da realização de Cristo na minha alma como meu Cristo, do que quaisquer resultados externos. Elias cumpriu plenamente os propósitos de Deus, embora parece que só teve um convertido (Eliseu) para o Senhor seu Deus. Também Noé não fez nenhum convertido; todavia cumpriu os propósitos do Senhor nas suas pregações. Portanto antes de o Senhor voltar 'como nos dias de Noé' teremos, penso eu, de estender as mãos sem muitos darem atenção; mas que seja a nossa preocupação, como indivíduos e como uma missão, pregar Cristo fielmente e amá-lO verdadeiramente.”
Foi de St Petersburg (Leninegrado) que ele escreveu: “Meu coração está realmente comovido quando penso em toda a bondade do Senhor para connosco, providenciando abundantemente as nossas necessidades. Espero que isto nos fará duplamente cuidadosos para gastar tudo para a Sua glória, e tão pouco como possível para nós mesmos. Além de ter todas as minhas despesas em St Peterburg pagas, tenho sido grandemente ajudado para minha viagem.”
Que viagem foi! Deixaram St Petersburg no dia 23 de Julho e chegaram a Bagdade somente no dia 6 de Dezembro, 4 meses e meio para percorrer quase 3.500 Km sobre estradas más, com transportes sem conforto e alojamentos primitivos. Ele escreveu no seu diário: “já passaram cinco noites seguidas sem tirarmos as nossas roupas.” Todavia, ao chegar a Astrakhan, na costa do mar Cáspio, ele regista a bondade e a misericórdia do Senhor trazendo-os 2.250 Km em segurança, muito pouco cansados e mesmo com melhor saúde do que quando partiram. Duma maneira extraordinária foram obtidos os guias essenciais para as últimas etapas da viagem e a passagem pela Cordilheira do Cáucaso foi difícil e houve algumas experiências alarmantes.
Em Bagdade Norris começou imediatamente a estudar árabe e a praticar medicina gratuitamente. Ele teve êxito surpreendente na operação de cataratas! Com um professor crente, começou-se uma escola para rapazes que resultou em muitos contactos úteis. Durante o primeiro ano houve uma revolta dos árabes contra o paxá, o ditador, e a comunicação com o exterior foi grandemente afectada com muitas cartas perdidas e, as recebidas, levaram 18 meses a chegar através do melhor caminho, isto é via Bombaim na Índia. Passaram muitas dificuldades financeiras mas as suas necessidades foram sempre satisfeitas.
Em Março 1831, um ano e três meses depois de ter chegado, a apavorada praga atingiu a cidade. Muitos fugiram mas Norris e a sua esposa, Mary, sentiram que era o seu dever ficar. As mortes aumentaram rapidamente atingindo 1,200 por dia. Vizinhos morreram. Muitos fugiram. Um mês mais tarde foi estimado que 30.000, quase 40% da população da cidade, tinha morrido. O rio Tigres transbordou destruindo grande parte da cidade. Foi difícil obter água potável. Crianças, abandonadas ou órfãos, morriam de fome ou da praga nas ruas. Foi impossível sepultar os mortos. No fim de Abril os mortos e aqueles que estavam a morrer acumulavam-se nas ruas.
Ninguém na casa de Norris, incluindo o professor e a sua família, apanharam a praga até ao dia 7 de Maio quando ele escreve no seu diário: “Isto é uma noite ansiosa, amada Mary adoeceu. Normalmente isto não me alarmava, mas agora qualquer coisa cria ansiedade. Todavia o seu coração está descansando no seu Senhor com paz perfeita, esperando a Sua vontade”. Os registos no seu diário nos dias seguintes são muito comoventes. Mary precisava assistência dia e noite que só ele podia prestar e ele sentiu que era inevitável que também ele iria cair perante a praga. Como clamava ao Senhor para que fosse preservado por algum tempo por causa dos seus filhos. Sua filha, Kitto, um bebé que tinha nascido pouco antes, também adoeceu e os seus dois filhos de onze e doze anos tinham de ser enfermeiros dia e noite da sua pequena irmã. No dia 14 de Maio 1831, ele registou no seu diário: “Hoje o espírito redimido da amada Mary tomou o seu lugar entre aqueles vestidos de branco, e o seu corpo foi devolvido à terra donde nasceu. Um dia escuro e pesado para a pobre natureza, mas mesmo assim o Senhor foi a sua luz e suporte”. Dois dias mais tarde Norris também adoeceu com sintomas similares aos da sua esposa mas no dia seguinte já estava muito melhor. Os dois filhos não foram atingidos mas a filha, tão querida a Norris, depois de arrastar-se durante algumas semanas, faleceu no dia 24 de Agosto. Norris escreveu: “Mesmo assim aceito, confio na vontade do Senhor com todo o meu coração. Todavia sinto desolação e solidão de coração que excede tudo que tenho sentido nos últimos seis meses de provação. Meu pequeno e doce bebé permaneceu um objecto daqueles afectos que, por muito disciplinados que sejam, existirão enquanto a vida durar. Mas em alguém tão fraco na fé, tão terreno como eu, tiveram muito, mesmo demasiado poder, e portanto o Senhor em Sua misericórdia para com a minha alma, os varreu para fora, para que eu não tenha nada mais neste mundo excepto o Seu serviço.”
Anthony Norris Groves é uma testemunha viva da realidade de fé num Deus vivo que providencia as necessidades do Seu servo em condições consideradas impossíveis. Ele escreveu no seu diário: “Nunca cesso de louvar a Deus pela segurança doce do Seu amor inalterável. Ele tem-me providenciado, não sei como, no meio de fome, praga e guerra. E embora não ouça de ninguém de Inglaterra há mais que um ano, o Senhor não me deixou sofrer necessidades ou ficar com dívidas… Sua bondade e cuidado têm sido maravilhosos.”
Terminada a praga, as condições melhoraram, a escola recomeçou e algumas pessoas se converteram, incluindo o seu filho Henry mas Norris sentiu profundamente a solidão e a falta de comunhão humana depois da morte da sua esposa Mary e da sua filha bebé. Ele estava preocupado, como registou no seu diário, que os amigos em Inglaterra pudessem ficar: “tristemente desencorajados pela maneira como o Senhor nos tratou, tão difícil é agir por fé em alturas de trevas”.Alguns amigos em Inglaterra, ouvindo das suas provas severas em Bagdade, insistiram com ele, várias vezes, para deixar a obra missionária e voltar mas ele não queria. Ele escreveu no seu diário: “Sendo plenamente persuadido quando saímos que a nossa decisão foi sábia e santa do Senhor”.
Em Abril 1833 um crente militar, capitão Arthur Cotton, visitou-o em Bagdade na sua viagem de regresso ao serviço com as forças militares na Índia. Este irmão tinha sido profundamente influenciado por um livrinho “Christian Devotedness” (Dedicação Cristã) escrito por Anthony Norris Groves em 1825. Arthur Cotton convenceu Norris a acompanhá-lo numa visita a Índia para ver as maravilhosas oportunidades para servir o Senhor naquela Nação. Deixando os seus dois filhos adolescentes com crentes em Bagdade, ele acompanhou este militar e chegou a Bombaim, Índia em Julho de 1833.
Assim foi o começo de um ministério com uma influencia enorme, entre missionários e na obra do evangelho, em várias partes da Índia, baseado nos princípios praticados por ele de viver pela fé olhando somente para o Senhor para o seu sustento.
Ultrapassa a capacidade deste pequeno artigo contar todo o seu ministério. Em Agosto de 1834 ele deixou Calcutá num barco para Inglaterra acompanhando um missionário escocês, Alexander Duff e a sua esposa. Este missionário tinha estado gravemente doente e Norris cuidou dele durante a doença provavelmente salvando assim a sua vida. Ele reuniu-se aos seus dois filhos que tinha deixado em Bagdade e a 25 de Abril de 1835 casou de novo com Harriet Baynes. Em 1836 Norris, sua esposa e seus filhos voltaram a Índia acompanhado por mais oito irmãos que sentiram a chamada de Deus. Ele estabeleceu-se em Madras, apoiando a obra missionário com a sua actividade como dentista e continuou pregando e ensinando na Índia até que a falta de saúde o obrigou a regressar a Inglaterra em 1852. Ele passou para a presença do seu Senhor no dia 20 de Maio de 1853 da casa do seu cunhado, George Müller.
O livrinho “Christian Devotedness”, com o subtítulo, “A consideração do preceito do nosso Salvador”: 'Não ajunteis tesouros na terra'” e a vida de Anthony Norris Groves, baseada neste preceito, tiveram um impacto enorme tanto na Inglaterra como na Índia e outras partes do mundo. Inspiraram, entre muitos, George Müller na Inglaterra, Arulappan e Bakht Singh na Índia e Hudson Taylor e Watman Nee na China.
Escrito por Ivan Fletcher
Bibliografia:“Turning The World Upside Down” Echoes of Service.
Netgrafia:http://en.wikipedia.org/wiki/Anthont_Norris_Groves
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