06-Fev-2012
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Saramago Imprimir

 

«... o céu é nada se nos olhos me cabe»


Toda esta polémica à volta do último livro do escritor de “Caim”, tem produzido em mim uma panóplia de sentimentos.
Em primeiro lugar uma revolta indignada de quem sente a injustiça de ouvir falar da Bíblia como um “manual de maus costumes”. Sem precisar que a defendam, a Bíblia permanece pelos séculos, sendo a inspiração dos direitos humanos  estão lá todos, e devem ser ensinados às crianças, ao contrário do que Saramago defende.
Passada a indignação, possuiu-me uma inquietante raiva pelo escritor, reagindo ao seu ódio por um Deus cuja existência nega, mas que adjectiva de “vingativo e má pessoa”. Incongruências à parte (não existe, mas é má pessoa?) vi-me, eu própria, a entrar em contradição na minha vivência cristã  incapaz de amar este homem, por pouco que fosse, muito menos como a mim mesma.
É claro que este sentimento não é saudável e, como tal, tentei livrar-me dele. A verdade é que recorri ao amor que Deus derrama nos corações e a raiva foi-se extinguindo; tentei ser empática com um homem amargurado e ferido de afectos e consegui orar por ele, consegui vê-lo carente da misericórdia do Deus que o ama e olhá-lo como alguém por quem Jesus se sacrificou.
Tenho que assumir que não consigo enredar-me na prosa de Saramago, perco-me na ausência de pontuação e o discurso não me cativa. Mas, apaixonada como sou por poesia, reconheço um encanto atractivo em alguns dos seus versos, como é o caso do Retrato do Poeta Quando Jovem:

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

E no Poema para Luís de Camões:
Meu amigo, meu espanto, meu convívio,  
Quem pudera dizer-te estas grandezas,  
Que eu não falo do mar, e o céu é nada  
Se nos olhos me cabe.  
 
Foram estes versos que me despertaram para compreender melhor o escritor obcecado por Deus ao ponto de o odiar tanto. Desde jovem que Saramago vive “um ansiar de sede inextinguida”, no alto da sua intelectualidade ainda não percebeu o que Pascal sublinhou: “Há um vazio no coração do homem que só Deus consegue preencher”.
O problema de Saramago é esta sede que não consegue saciar, é não entender que do Deus da bíblia jorram rios de água viva.
É interessante o verso que dedica a Camões “o céu é nada se nos olhos me cabe”. Saramago pensa que enxerga tudo, quer ver Deus à sua medida, enquadrá-lo com o seu olhar, e ainda não apreendeu que essa é uma tarefa impossível. Deve ser doloroso para ele sentir a realidade do salmo 139 “Para onde me irei da tua face?” e não perceber que está para Deus como o barro para o oleiro.
O meu desejo é que Saramago sacie a sua sede e alcance ver, com os olhos do coração, que “Há um nascer do sol no sítio exacto” porque Deus sustenta todas as coisas, com a precisão que nenhum cientista, escritor ou artista consegue decifrar.

Helena Sequeira
(Ig.Sota - Coimbra)

 

 

 
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