19-Mai-2013
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Coração quebrantado Imprimir

 

Que fui eu fazer? Deus estava a preparar-me para ser o libertador do meu povo, do desprezado e oprimido povo de Israel, e agora está tudo perdido… Quando Faraó ordenou que todos os meninos israelitas recém-nascidos fossem mortos, com que amor e cuidado a minha mãe me colocou numa arca de juncos nas margens do Nilo. Até que a própria filha de Faraó me descobriu e se encantou comigo, e a minha irmã, que me vigiava à distância, sabiamente lhe propôs que uma ama hebreia (não lhe disse que seria a minha mãe) me criasse, até eu ser mais crescido e poder ir viver no seu palácio, como filho adoptivo.
Foi a providência de Deus que esteve por trás de tudo isto. E agora que, com quarenta anos de idade e uma formação sólida, estava preparado para cumprir a missão da minha vida, num momento infeliz perdi a cabeça e deitei tudo a perder… Foram tantos os anos a engolir a raiva, por ver a injustiça e a opressão praticadas contra o meu povo, que, quando vi aquele imundo egípcio agredir um meu irmão, não me consegui controlar, e matei-o logo ali.
Ainda o escondi na areia, mas era tarde demais: alguém tinha visto o meu acto, porque, no dia seguinte, quando tentei apaziguar dois israelitas, um deles perguntou-me quem me tinha posto por maioral e juiz sobre eles e se queria matá-lo, como tinha feito ao egípcio. Tive de fugir para salvar a vida… Agora, nada mais me resta, senão terminar os meus dias num qualquer lugar distante, longe do meu povo, e esquecer os planos que Deus tinha para mim…”
Ao fugir para os territórios desérticos da Península do Sinai, os pensamentos de Moisés não terão sido muito diferentes dos que acabamos de enunciar. De facto, na Palavra de Deus lemos: “E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios; e era poderoso em suas palavras e obras. (…) E ele cuidava que os seus irmãos entenderiam que Deus lhes havia de dar a liberdade pela sua mão; mas eles não entenderam.” (Act. 7.22,25)
Aos olhos de Moisés, a sua situação era irreparável. Todavia, “os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos” (Isa. 55.8-9). Desta forma, terminada (e frustrada) a preparação humana de Moisés, inicia-se a preparação divina, no deserto do quebrantamento. Quarenta anos no Egipto (e nas Escrituras esta nação surge-nos muitas vezes como um símbolo do mundo, no sentido de sistema separado de Deus) fizeram de Moisés um homem eloquente e de acção, que, todavia, não foi visto nem aceite pelos israelitas como líder; quarenta anos no deserto moldaram um Moisés totalmente diferente…
Ali, ao apascentar rebanhos em completa solidão, teve muito tempo para reflectir sobre a sua vida passada, para se arrepender amargamente das suas atitudes erradas e do grave pecado que cometera, ao tirar violentamente a vida a um homem. Ali, aprendeu a ver-se como realmente era, sem máscaras nem fachadas, e, ao fazê-lo, tornou-se mais e mais humilde. Podia aplicar a si próprio as palavras do salmista: “Estou fraco e mui quebrantado; tenho rugido por causa do desassossego do meu coração.” (Sal. 38.8).
Porém, “perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado” (Sal. 34.18) e o Seu poder “se aperfeiçoa na fraqueza” (II Cor. 12.9), pelo que, quando viu Moisés naquela disposição de espírito, decidiu que tinha chegado a altura certa para o usar:
“Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante Ele.” (I Cor. 1.27-29)
O quebrantamento do coração de Moisés foi tão completo que, quando o Senhor lhe apareceu numa sarça ardente, ele não quis aceitar a missão, por que antes tanto ansiara, de ser o libertador do seu povo. As desculpas foram muitas (Êxo. 3.11 a 4.12):
“Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egipto os filhos de Israel?” (o Senhor disse-lhe que iria com ele); “Eis que, quando vier aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?” (o Senhor disse-lhe que o Seu nome era EU SOU O QUE SOU); “Mas eis que me não crerão, nem ouvirão a minha voz, porque dirão: O Senhor não te apareceu” (o Senhor transformou a sua vara de pastor numa cobra e novamente em vara e tornou a sua mão leprosa e novamente sã, dizendo-lhe que deveria fazer estes sinais perante os israelitas); “Ah Senhor! Eu não sou homem eloquente (…); porque sou pesado de boca, e pesado de língua” (o Senhor disse-lhe que tinha sido Ele a criar a boca do homem e que lhe diria o que deveria falar).
Ficou Moisés convencido após, por quatro vezes e com tanto amor, ter sido tranquilizado por Deus? Não. A sua reacção foi: “Ah Senhor! Envia por mão daquele a quem tu hás-de enviar.” (Êxo. 4.13)
O nosso Deus é um Deus paciente, bem para além do que conseguimos compreender. Porém, há alturas em que chegamos ao ponto de fazer com que mesmo a Sua paciência se esgote. Neste caso, Ele teve de irar-se e de (ao mesmo tempo que designou Aarão seu porta-voz) praticamente obrigar Moisés a aceitar a Sua chamada…
Os anos passados no deserto tinham-no transformado num homem humilde que, porém, agora pecava por, considerando-se limitado e mesmo inútil, hesitar em apropriar-se das promessas e do poder do Senhor (“Se Deus é por nós, quem será contra nós?” – Rom. 8.31).
A história posterior de Moisés é bem conhecida: depois da sua longa preparação de oitenta anos, passou quarenta a desempenhar a difícil missão de conduzir o desobediente e obstinado povo de Israel, que ele todavia tanto amava, até às portas da Terra Prometida.
Antes disso, porém, foi o instrumento de Deus para libertá-lo da sua escravatura, primeiro, ao ousadamente enfrentar um Faraó com o coração endurecido, anunciando-lhe as dez sucessivas e terríveis pragas que deveriam convencê-lo a deixar partir os israelitas, e, finalmente, na vitória derradeira sobre aquele tirano e o seu poderoso exército, que ficaram sepultados nas águas do Mar Vermelho.
Tal foi a forma como o Senhor trabalhou na vida de Moisés que, pela altura em que este anunciou a décima praga (a da morte dos primogénitos), já “era mui grande na terra do Egipto, aos olhos dos servos de Faraó, e aos olhos do povo” (Êxo. 11.3). E, na conclusão do Pentateuco, ele é descrito com estas palavras: “nunca mais se levantou, em Israel, profeta algum como Moisés, a quem o Senhor conhecera cara a cara; nem semelhante em todos os sinais e maravilhas que o Senhor o enviou para fazer (...).” (Deut. 34.10-11)
“Aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado” (Luc. 14.11). É esta a obra de misericórdia e graça que o Senhor quer também operar nas nossas vidas:
Abramos-Lhe os nossos corações!

João Filipe Silva / Refrigério 144

 

 
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